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Os provérbios/ditados populares

A minha mãe tem sempre pronto um ditado popular ou mais, para cada mês do ano. Ela diz que devemos ter atenção ao que nos ensinaram os nossos antepassados pois eles têm sempre razão. Cá no Sátão, uma região rural,  a vida das pessoas é difícil,  os alimentos são poucos e as sementeiras e as colheitas são muito importantes para a subsistência de todas as pessoas. Daí a preocupação constante por saber o tempo que vai fazer e a melhor altura para semear ou colher. Eu até apontei alguns desses provérbios:

Janeiro codejeiro.

Em Janeiro sobe ao outeiro, se vires verdejar põe-te a chorar,  se vires negrejar põe-te a cantar.

Quando troveja em Janeiro, semeia o milho no outeiro.

Quantas vezes pia o mocho em Janeiro, quantos alqueires faltam ao celeiro.

Quem azeite colhe antes de Janeiro, azeite deita no madeiro.

Fevereiro, rego cheio.

Fevereiro quente traz o diabo no ventre.

Quando não chove em Fevereiro não há bom prado nem bom celeiro.

Março, tanto chova que até faça limoaço.

Março marçagão de manhã zumbe a abelha, à tarde arreganha a ovelha.

Março marçagão: pela manhã focinho de cão e pela tarde verão.

Em Abril queima a velha o carro e o carril e troca a filha por pão a quem a pedir.

Abril frio e molhado enche a tulha e farta o gado.

Abril: águas mil coadas por um funil. Queima a velha o carro e o carril e dá a filha por um pão a quem a pedir, mas é se o vir.

Maio ventoso para tornar o pão formoso.

Maio couveiro não é vinhateiro.

Maio hortelão, muita palha pouco grão.

Maio pardo faz o centeio grado e farta os burros de erva. As águas que no Verão  hão-de regar, de Abril e Maio hão-de ficar.

Junho, foicinhas ao punho.

Em Junho comem-se as cerejas ao lume.

Junho marinheiro, faz grelar o centeio no rolheiro.

Julho: a chuva bebem-na os pássaros pelo ar.

Não há luar como o de Janeiro, mas lá virá o de Agosto que lhe dá no rosto.

Agosto: quem guarda a malha para Agosto malha com desgosto.

Em Setembro secam as fontes e ardem os montes.

Em Outubro colhe tudo.

Janeiro geoso, Fevereiro nevoso, Março molinhoso, Abril chuvoso, Maio ventoso, fazem o céu formoso.

Mais uma história da minha avó

Conta a minha avó que quando o nosso sacerdote veio para a nossa paróquia, cada vez que passava pela Ti Zulmira, e a saudava, a velhinha respondia-lhe sempre: “Deus o conserve”.

O padre já andava tão intrigado que um dia perguntou-lhe:

-Porque é que a senhora Zulmira me diz sempre “Deus o conserve”?

-Olhe senhor padre, tínhamos cá um padre muito velhinho e muito bom que faleceu. A seguir veio um padre que já não era bom como ele. O senhor parece-me um pouco pior que ele, por isso, se há-de vir outro ainda pior do que o senhor, que “Deus o conserve”.

Parece que o padre engoliu em seco e lá foi à vida dele.

Novas da República

Há um ano que deixámos de ser governados por um rei e agora temos um Presidente da República, que foi eleito, segundo diz o meu pai e não herdou o cargo, e que se chama Manuel de Arriaga. Também fizeram uma bandeira nova com cores bonitas, verde, vermelho e amarelo e canta-se uma canção que se chama “A Portuguesa”. Diz o Senhor João que sabe sempre as novidades que é o novo hino nacional. Segundo ele também vai mudar a moeda, deixa de ser o real e vai passar a ser o escudo. O meu pai comenta que moeda é dinheiro e desde que haja para as nossas necessidades não interessa o nome. Mas eu, tenho andado cá a pensar que, se calhar, estas mudanças todas vão fazer com que a vida fique mais moderna e melhor. Afinal, ninguém no seu perfeito juízo muda para pior. Na venda aparecem umas revistas com desenhos engraçados e diz o tal senhor João que agora as pessoas podem dizer e escrever o que pensam porque foi aprovada uma tal lei da liberdade de imprensa. Eu acho que com todas estas mudanças a vida vai melhorar.

De novo ao lume

Já tínhamos ceado, o caldo hoje tinha um saborzinho a carne de porco fresca porque a matança foi há pouco tempo. Uma fatia de broa a acompanhar e depois, eis-nos todos de volta do lume a arder.

Eu gosto de ouvir a minha mãe a cantar e pedi-lhe que nos cantasse aquela em que o morgado é morto quando vai para a feira. É das minhas preferidas! Ela estava bem disposta e lá a cantou.

Minha tia tira a ceia

Minha tia tira a ceia

Que quero ir à Junceira

Buscar minha roupa nova

P´ra amanhã levar à feira.

Não vás lá ó morgadinho

Que te podem lá matar

Sem a tua roupa nova

Ficas o mesmo morgado.

Onze horas, meia noite

Morgadinho a abalar

Quando chegou à Junceira

Já lá estavam p´ro matar.

Já lhe dava o seu cavalo

Dinheiro quanto trazia,

P´ra o deixarem ir a casa

Despedir de sua tia.

Não te queremos teu cavalo

Nem nada da tua mão

Queremos tirar-te a vida

E arrancar teu coração.

Depois, como só uma canção era pouco, ela vai e canta uma para as minhas irmãs recomendando-lhes que deviam ter muito juízo e desconfiar dos rapazes estarolas que lhes podiam fazer mal.

Isaura estava à janela

Isaura estava à janela

Na janela debruçada

Passou lá um rapaz novo

Adeus minha namorada.

Adeus minha namorada

Eu não conheço o senhor

Você é um rapaz novo

Não sei o seu interior.

Isaura foi p´ro quintal

O malvado foi atrás dela

Deitou-lhe a mão à cintura

Ao chão atirou com ela.

O malvado do seu pai

Sua filha abandonou

Por ela cair num erro

À  má vida a entregou.

Lá vai uma pobre mãe

À procura duma filha

Foi dar com ela a chorar

Junto das da triste vida.

Anda daí minha filha

Uma mãe que te criou

Tanta passadinha deu

Tanta lágrima chorou.

Anda daí minha filha

Uma mãe que te quer bem

Todas as filhinhas fazem

O que manda a sua mãe.

Vá-se embora minha mãe

Aqui não tem que fazer

Em meu fado acabando

A casa lhe irei bater.

Recomendou que devem desconfiar de todos mesmo aqueles que mais ricos e senhores prometem juras falsas juras de amor, porque depois de enganarem as incautas as deixam ao abandono. E a propósito cantou:

Um senhor de alta riqueza

Um senhor de alta riqueza

O filho de um lavrador

Namorou a camponesa

Com falsas juras de amor.

Depois de a enganar

Ele não voltou porém

Foi quando a pobre notou

Que andava para ser mãe.

Aquela mãe adorada

Pega na roca a fiar

Foi pôr-se à beira da estrada

P´ra ver se o via passar.

Tanto andou q´até um dia

Que lá vem o senhor doutor

Que no seu ventre trazia

O fruto do seu amor.

Sem do cavalo descer:

– Eu nada disso me ralo

Se for meu filho há-de ser

Parecido ao meu cavalo.

A simplicidade de um homem


Cá na aldeia vive o João, que segundo a minha mãe, é um caso especial. É muito pobre e segundo o meu pai, é um pouco simplório. A sua maior riqueza são umas vitelinhas que ele criou com muito cuidado.

No outro dia, como as vitelinhas já estavam crescidas, resolveu ir experimentá-las, para ver se elas se adaptavam bem ao trabalho do campo.

Jungiu as vitelinhas, pô-las ao carro e ele pôs-se em cima do carro com o arado ao ombro. O Adriano quando o viu passar naquele aparato perguntou-lhe:

– Ó João que vais tu a fazer em cima do carro com o arado ao ombro?

– É porque as vitelinhas são ainda novinhas e muito fraquinhas.

O Adriano não tardou a contar a quem encontrava o que tinha visto. Todos se riram da simplicidade do João que não percebia que com ele em cima do carro, as vitelinhas ainda iam mais carregadas e cansadas.

Esta noite a minha mãe zangou-se porque os meus irmãos pegaram-se de razões uns com os outros e arranjaram grande algazarra. Logo que tudo acalmou depois de ela ter distribuído uns bons tabefes, e vendo as suas caras amuadas junto à lareira, minha mãe resolveu pregar sermão. Disse que devíamos dar graças a Deus pela família que temos, pois há muitas crianças sós neste mundo sem ninguém que cuide delas. Para rematar cantou duas das suas canções que ouviu a um cego que há uns tempos atrás passou por aqui.

O que fazes tu criança em cima deste penedo

O que fazes tu criança

Em cima desse penedo?

Quero ir ao cemitério

Mas sozinha tenho medo.

Que queres tu lá ir fazer

Se lá não anda ninguém?

Deixe-me lá ir senhor coveiro

À campa de minha mãe.

Então tu já não tens mãe

Criança tão pequenina?

Já não tenho pai nem mãe

Vivo no mundo sozinha.

Tinha apenas um irmão

A quem eu chamava pai

Pela minha infeliz sorte

Até esse já lá vai.

Ó morte cruel, ó morte,

Sobre ti me hei-de queixar

Levaste-me pai e mãe

Sem me acabar de criar.

Ó morte cruel, ó morte

Sobre ti tenho mil queixas,

Quem hás-de levar não levas,

Quem hás-de deixar não deixas.

Era uma vez uma mãe que partiu

Era uma vez uma mãe que tinha

Um filho pequenino de dois anos

A fome começou a persegui-la

A triste decidiu-se ao desengano.

Deixou o filho entregue a uma vizinha

A quem a criancinha confiou

Daí por quatro ou cinco anos

A pobre à sua terra voltou.

Chegou a casa da sua vizinha

E viu o seu filho tão crescido

Olhou para ele com tanto amor

E lembrou-se do retrato do marido.

Não fujas ó filhinho da minha alma

Porque eu é que sou tua mãe querida

Deixei-te e entreguei-te a esta mulher

Somente foi p´ra governar a vida.

E por hoje como me sinto cansada

Com a luta infeliz da pouca sorte

Triste sorte, minha sorte, infeliz sorte

Contigo quero esperar a morte.

A minha mãe acabou de cantar e estávamos todos de lágrima no olho, com pena daquelas crianças abandonadas e da tristeza daquela mãe. Aqui na terra conhecemos algumas crianças que são órfãs, mas foram acolhidas pelos familiares e lá vão andando, coitadas.

A senhora de Montalto

A minha avó contou-me uma história muito engraçada porque ela diz que as raparigas de agora são matreiras e que devemos ter cuidado com elas.

Certo homem começou a desconfiar que a esposa não lhe era fiel. Esta desconfiança surgiu quando alguém foi contar ao marido. A mulher afirmava que não era verdade e, para ele ter a certeza, o melhor era irem à Senhora do Montalto.  Quando chegaram ao local, onde a penedia fazia um grande eco, ela perguntou à Senhora:

– Ó Senhora do Montalto, dizem que eu ando amancebada com outro homem, se é verdade, dizei-me que sim (este sim dito em voz baixa), se não, gritava ela alto, dizei-me que não.

E o eco repetia: não, não,não…

Ela para o homem ficar bem convencido, repetiu várias vezes o mesmo pedido e obtinha sempre a mesma resposta.

O homem ficou tão contente que a levou para casa às cavalitas. No meio do caminho ela viu umas lousas e disse ao marido:

– Ó homem, podíamos levar aquelas pedrinhas que são tão jeitosas para as testas das nossas panelas de barro.

O marido apanhou as pedras e entregou-lhas.

Ela toda satisfeita dizia:

– Ó homem, como Deus faz bem as cousas, tu levas-me a mim e eu levo as lousas!