Já tínhamos ceado, o caldo hoje tinha um saborzinho a carne de porco fresca porque a matança foi há pouco tempo. Uma fatia de broa a acompanhar e depois, eis-nos todos de volta do lume a arder.
Eu gosto de ouvir a minha mãe a cantar e pedi-lhe que nos cantasse aquela em que o morgado é morto quando vai para a feira. É das minhas preferidas! Ela estava bem disposta e lá a cantou.
Minha tia tira a ceia
Minha tia tira a ceia
Que quero ir à Junceira
Buscar minha roupa nova
P´ra amanhã levar à feira.
Não vás lá ó morgadinho
Que te podem lá matar
Sem a tua roupa nova
Ficas o mesmo morgado.
Onze horas, meia noite
Morgadinho a abalar
Quando chegou à Junceira
Já lá estavam p´ro matar.
Já lhe dava o seu cavalo
Dinheiro quanto trazia,
P´ra o deixarem ir a casa
Despedir de sua tia.
Não te queremos teu cavalo
Nem nada da tua mão
Queremos tirar-te a vida
E arrancar teu coração.
Depois, como só uma canção era pouco, ela vai e canta uma para as minhas irmãs recomendando-lhes que deviam ter muito juízo e desconfiar dos rapazes estarolas que lhes podiam fazer mal.
Isaura estava à janela
Isaura estava à janela
Na janela debruçada
Passou lá um rapaz novo
Adeus minha namorada.
Adeus minha namorada
Eu não conheço o senhor
Você é um rapaz novo
Não sei o seu interior.
Isaura foi p´ro quintal
O malvado foi atrás dela
Deitou-lhe a mão à cintura
Ao chão atirou com ela.
O malvado do seu pai
Sua filha abandonou
Por ela cair num erro
À má vida a entregou.
Lá vai uma pobre mãe
À procura duma filha
Foi dar com ela a chorar
Junto das da triste vida.
Anda daí minha filha
Uma mãe que te criou
Tanta passadinha deu
Tanta lágrima chorou.
Anda daí minha filha
Uma mãe que te quer bem
Todas as filhinhas fazem
O que manda a sua mãe.
Vá-se embora minha mãe
Aqui não tem que fazer
Em meu fado acabando
A casa lhe irei bater.
Recomendou que devem desconfiar de todos mesmo aqueles que mais ricos e senhores prometem juras falsas juras de amor, porque depois de enganarem as incautas as deixam ao abandono. E a propósito cantou:
Um senhor de alta riqueza
Um senhor de alta riqueza
O filho de um lavrador
Namorou a camponesa
Com falsas juras de amor.
Depois de a enganar
Ele não voltou porém
Foi quando a pobre notou
Que andava para ser mãe.
Aquela mãe adorada
Pega na roca a fiar
Foi pôr-se à beira da estrada
P´ra ver se o via passar.
Tanto andou q´até um dia
Que lá vem o senhor doutor
Que no seu ventre trazia
O fruto do seu amor.
Sem do cavalo descer:
- Eu nada disso me ralo
Se for meu filho há-de ser
Parecido ao meu cavalo.
