Esta noite a minha mãe zangou-se porque os meus irmãos pegaram-se de razões uns com os outros e arranjaram grande algazarra. Logo que tudo acalmou depois de ela ter distribuído uns bons tabefes, e vendo as suas caras amuadas junto à lareira, minha mãe resolveu pregar sermão. Disse que devíamos dar graças a Deus pela família que temos, pois há muitas crianças sós neste mundo sem ninguém que cuide delas. Para rematar cantou duas das suas canções que ouviu a um cego que há uns tempos atrás passou por aqui.
O que fazes tu criança em cima deste penedo
O que fazes tu criança
Em cima desse penedo?
Quero ir ao cemitério
Mas sozinha tenho medo.
Que queres tu lá ir fazer
Se lá não anda ninguém?
Deixe-me lá ir senhor coveiro
À campa de minha mãe.
Então tu já não tens mãe
Criança tão pequenina?
Já não tenho pai nem mãe
Vivo no mundo sozinha.
Tinha apenas um irmão
A quem eu chamava pai
Pela minha infeliz sorte
Até esse já lá vai.
Ó morte cruel, ó morte,
Sobre ti me hei-de queixar
Levaste-me pai e mãe
Sem me acabar de criar.
Ó morte cruel, ó morte
Sobre ti tenho mil queixas,
Quem hás-de levar não levas,
Quem hás-de deixar não deixas.
Era uma vez uma mãe que partiu
Era uma vez uma mãe que tinha
Um filho pequenino de dois anos
A fome começou a persegui-la
A triste decidiu-se ao desengano.
Deixou o filho entregue a uma vizinha
A quem a criancinha confiou
Daí por quatro ou cinco anos
A pobre à sua terra voltou.
Chegou a casa da sua vizinha
E viu o seu filho tão crescido
Olhou para ele com tanto amor
E lembrou-se do retrato do marido.
Não fujas ó filhinho da minha alma
Porque eu é que sou tua mãe querida
Deixei-te e entreguei-te a esta mulher
Somente foi p´ra governar a vida.
E por hoje como me sinto cansada
Com a luta infeliz da pouca sorte
Triste sorte, minha sorte, infeliz sorte
Contigo quero esperar a morte.
A minha mãe acabou de cantar e estávamos todos de lágrima no olho, com pena daquelas crianças abandonadas e da tristeza daquela mãe. Aqui na terra conhecemos algumas crianças que são órfãs, mas foram acolhidas pelos familiares e lá vão andando, coitadas.

Cantar à noite deve ser mesmo divertido!:-)
Mas neste caso a música é um bocado triste, mas às vezes acontece!!
A minha mãe também me cantava uma música parecida com essa, a letra é um pouco diferente, mas canta-se tipo fado. Havia mais duas, uma chamada “aldininha” e outra sobre um ladrão. Eu chorava tanto por as histórias serem tristes que adormecia num instante. Lindo encontrar alguém que também cantava à noite isto.