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Os provérbios/ditados populares

A minha mãe tem sempre pronto um ditado popular ou mais, para cada mês do ano. Ela diz que devemos ter atenção ao que nos ensinaram os nossos antepassados pois eles têm sempre razão. Cá no Sátão, uma região rural,  a vida das pessoas é difícil,  os alimentos são poucos e as sementeiras e as colheitas são muito importantes para a subsistência de todas as pessoas. Daí a preocupação constante por saber o tempo que vai fazer e a melhor altura para semear ou colher. Eu até apontei alguns desses provérbios:

Janeiro codejeiro.

Em Janeiro sobe ao outeiro, se vires verdejar põe-te a chorar,  se vires negrejar põe-te a cantar.

Quando troveja em Janeiro, semeia o milho no outeiro.

Quantas vezes pia o mocho em Janeiro, quantos alqueires faltam ao celeiro.

Quem azeite colhe antes de Janeiro, azeite deita no madeiro.

Fevereiro, rego cheio.

Fevereiro quente traz o diabo no ventre.

Quando não chove em Fevereiro não há bom prado nem bom celeiro.

Março, tanto chova que até faça limoaço.

Março marçagão de manhã zumbe a abelha, à tarde arreganha a ovelha.

Março marçagão: pela manhã focinho de cão e pela tarde verão.

Em Abril queima a velha o carro e o carril e troca a filha por pão a quem a pedir.

Abril frio e molhado enche a tulha e farta o gado.

Abril: águas mil coadas por um funil. Queima a velha o carro e o carril e dá a filha por um pão a quem a pedir, mas é se o vir.

Maio ventoso para tornar o pão formoso.

Maio couveiro não é vinhateiro.

Maio hortelão, muita palha pouco grão.

Maio pardo faz o centeio grado e farta os burros de erva. As águas que no Verão  hão-de regar, de Abril e Maio hão-de ficar.

Junho, foicinhas ao punho.

Em Junho comem-se as cerejas ao lume.

Junho marinheiro, faz grelar o centeio no rolheiro.

Julho: a chuva bebem-na os pássaros pelo ar.

Não há luar como o de Janeiro, mas lá virá o de Agosto que lhe dá no rosto.

Agosto: quem guarda a malha para Agosto malha com desgosto.

Em Setembro secam as fontes e ardem os montes.

Em Outubro colhe tudo.

Janeiro geoso, Fevereiro nevoso, Março molinhoso, Abril chuvoso, Maio ventoso, fazem o céu formoso.

Mais uma história da minha avó

Conta a minha avó que quando o nosso sacerdote veio para a nossa paróquia, cada vez que passava pela Ti Zulmira, e a saudava, a velhinha respondia-lhe sempre: “Deus o conserve”.

O padre já andava tão intrigado que um dia perguntou-lhe:

-Porque é que a senhora Zulmira me diz sempre “Deus o conserve”?

-Olhe senhor padre, tínhamos cá um padre muito velhinho e muito bom que faleceu. A seguir veio um padre que já não era bom como ele. O senhor parece-me um pouco pior que ele, por isso, se há-de vir outro ainda pior do que o senhor, que “Deus o conserve”.

Parece que o padre engoliu em seco e lá foi à vida dele.

Novas da República

Há um ano que deixámos de ser governados por um rei e agora temos um Presidente da República, que foi eleito, segundo diz o meu pai e não herdou o cargo, e que se chama Manuel de Arriaga. Também fizeram uma bandeira nova com cores bonitas, verde, vermelho e amarelo e canta-se uma canção que se chama “A Portuguesa”. Diz o Senhor João que sabe sempre as novidades que é o novo hino nacional. Segundo ele também vai mudar a moeda, deixa de ser o real e vai passar a ser o escudo. O meu pai comenta que moeda é dinheiro e desde que haja para as nossas necessidades não interessa o nome. Mas eu, tenho andado cá a pensar que, se calhar, estas mudanças todas vão fazer com que a vida fique mais moderna e melhor. Afinal, ninguém no seu perfeito juízo muda para pior. Na venda aparecem umas revistas com desenhos engraçados e diz o tal senhor João que agora as pessoas podem dizer e escrever o que pensam porque foi aprovada uma tal lei da liberdade de imprensa. Eu acho que com todas estas mudanças a vida vai melhorar.

De novo ao lume

Já tínhamos ceado, o caldo hoje tinha um saborzinho a carne de porco fresca porque a matança foi há pouco tempo. Uma fatia de broa a acompanhar e depois, eis-nos todos de volta do lume a arder.

Eu gosto de ouvir a minha mãe a cantar e pedi-lhe que nos cantasse aquela em que o morgado é morto quando vai para a feira. É das minhas preferidas! Ela estava bem disposta e lá a cantou.

Minha tia tira a ceia

Minha tia tira a ceia

Que quero ir à Junceira

Buscar minha roupa nova

P´ra amanhã levar à feira.

Não vás lá ó morgadinho

Que te podem lá matar

Sem a tua roupa nova

Ficas o mesmo morgado.

Onze horas, meia noite

Morgadinho a abalar

Quando chegou à Junceira

Já lá estavam p´ro matar.

Já lhe dava o seu cavalo

Dinheiro quanto trazia,

P´ra o deixarem ir a casa

Despedir de sua tia.

Não te queremos teu cavalo

Nem nada da tua mão

Queremos tirar-te a vida

E arrancar teu coração.

Depois, como só uma canção era pouco, ela vai e canta uma para as minhas irmãs recomendando-lhes que deviam ter muito juízo e desconfiar dos rapazes estarolas que lhes podiam fazer mal.

Isaura estava à janela

Isaura estava à janela

Na janela debruçada

Passou lá um rapaz novo

Adeus minha namorada.

Adeus minha namorada

Eu não conheço o senhor

Você é um rapaz novo

Não sei o seu interior.

Isaura foi p´ro quintal

O malvado foi atrás dela

Deitou-lhe a mão à cintura

Ao chão atirou com ela.

O malvado do seu pai

Sua filha abandonou

Por ela cair num erro

À  má vida a entregou.

Lá vai uma pobre mãe

À procura duma filha

Foi dar com ela a chorar

Junto das da triste vida.

Anda daí minha filha

Uma mãe que te criou

Tanta passadinha deu

Tanta lágrima chorou.

Anda daí minha filha

Uma mãe que te quer bem

Todas as filhinhas fazem

O que manda a sua mãe.

Vá-se embora minha mãe

Aqui não tem que fazer

Em meu fado acabando

A casa lhe irei bater.

Recomendou que devem desconfiar de todos mesmo aqueles que mais ricos e senhores prometem juras falsas juras de amor, porque depois de enganarem as incautas as deixam ao abandono. E a propósito cantou:

Um senhor de alta riqueza

Um senhor de alta riqueza

O filho de um lavrador

Namorou a camponesa

Com falsas juras de amor.

Depois de a enganar

Ele não voltou porém

Foi quando a pobre notou

Que andava para ser mãe.

Aquela mãe adorada

Pega na roca a fiar

Foi pôr-se à beira da estrada

P´ra ver se o via passar.

Tanto andou q´até um dia

Que lá vem o senhor doutor

Que no seu ventre trazia

O fruto do seu amor.

Sem do cavalo descer:

- Eu nada disso me ralo

Se for meu filho há-de ser

Parecido ao meu cavalo.

A simplicidade de um homem


Cá na aldeia vive o João, que segundo a minha mãe, é um caso especial. É muito pobre e segundo o meu pai, é um pouco simplório. A sua maior riqueza são umas vitelinhas que ele criou com muito cuidado.

No outro dia, como as vitelinhas já estavam crescidas, resolveu ir experimentá-las, para ver se elas se adaptavam bem ao trabalho do campo.

Jungiu as vitelinhas, pô-las ao carro e ele pôs-se em cima do carro com o arado ao ombro. O Adriano quando o viu passar naquele aparato perguntou-lhe:

- Ó João que vais tu a fazer em cima do carro com o arado ao ombro?

- É porque as vitelinhas são ainda novinhas e muito fraquinhas.

O Adriano não tardou a contar a quem encontrava o que tinha visto. Todos se riram da simplicidade do João que não percebia que com ele em cima do carro, as vitelinhas ainda iam mais carregadas e cansadas.

Esta noite a minha mãe zangou-se porque os meus irmãos pegaram-se de razões uns com os outros e arranjaram grande algazarra. Logo que tudo acalmou depois de ela ter distribuído uns bons tabefes, e vendo as suas caras amuadas junto à lareira, minha mãe resolveu pregar sermão. Disse que devíamos dar graças a Deus pela família que temos, pois há muitas crianças sós neste mundo sem ninguém que cuide delas. Para rematar cantou duas das suas canções que ouviu a um cego que há uns tempos atrás passou por aqui.

O que fazes tu criança em cima deste penedo

O que fazes tu criança

Em cima desse penedo?

Quero ir ao cemitério

Mas sozinha tenho medo.

Que queres tu lá ir fazer

Se lá não anda ninguém?

Deixe-me lá ir senhor coveiro

À campa de minha mãe.

Então tu já não tens mãe

Criança tão pequenina?

Já não tenho pai nem mãe

Vivo no mundo sozinha.

Tinha apenas um irmão

A quem eu chamava pai

Pela minha infeliz sorte

Até esse já lá vai.

Ó morte cruel, ó morte,

Sobre ti me hei-de queixar

Levaste-me pai e mãe

Sem me acabar de criar.

Ó morte cruel, ó morte

Sobre ti tenho mil queixas,

Quem hás-de levar não levas,

Quem hás-de deixar não deixas.

Era uma vez uma mãe que partiu

Era uma vez uma mãe que tinha

Um filho pequenino de dois anos

A fome começou a persegui-la

A triste decidiu-se ao desengano.

Deixou o filho entregue a uma vizinha

A quem a criancinha confiou

Daí por quatro ou cinco anos

A pobre à sua terra voltou.

Chegou a casa da sua vizinha

E viu o seu filho tão crescido

Olhou para ele com tanto amor

E lembrou-se do retrato do marido.

Não fujas ó filhinho da minha alma

Porque eu é que sou tua mãe querida

Deixei-te e entreguei-te a esta mulher

Somente foi p´ra governar a vida.

E por hoje como me sinto cansada

Com a luta infeliz da pouca sorte

Triste sorte, minha sorte, infeliz sorte

Contigo quero esperar a morte.

A minha mãe acabou de cantar e estávamos todos de lágrima no olho, com pena daquelas crianças abandonadas e da tristeza daquela mãe. Aqui na terra conhecemos algumas crianças que são órfãs, mas foram acolhidas pelos familiares e lá vão andando, coitadas.

A senhora de Montalto

A minha avó contou-me uma história muito engraçada porque ela diz que as raparigas de agora são matreiras e que devemos ter cuidado com elas.

Certo homem começou a desconfiar que a esposa não lhe era fiel. Esta desconfiança surgiu quando alguém foi contar ao marido. A mulher afirmava que não era verdade e, para ele ter a certeza, o melhor era irem à Senhora do Montalto.  Quando chegaram ao local, onde a penedia fazia um grande eco, ela perguntou à Senhora:

- Ó Senhora do Montalto, dizem que eu ando amancebada com outro homem, se é verdade, dizei-me que sim (este sim dito em voz baixa), se não, gritava ela alto, dizei-me que não.

E o eco repetia: não, não,não…

Ela para o homem ficar bem convencido, repetiu várias vezes o mesmo pedido e obtinha sempre a mesma resposta.

O homem ficou tão contente que a levou para casa às cavalitas. No meio do caminho ela viu umas lousas e disse ao marido:

- Ó homem, podíamos levar aquelas pedrinhas que são tão jeitosas para as testas das nossas panelas de barro.

O marido apanhou as pedras e entregou-lhas.

Ela toda satisfeita dizia:

- Ó homem, como Deus faz bem as cousas, tu levas-me a mim e eu levo as lousas!

A República

O senhor da casa grande onde trabalham as minhas irmãs costuma receber o jornal e sabe sempre das novidades todas. Ora hoje espalhou-se cá pela terra que em Lisboa acabaram com a Monarquia e agora vamos ter a República. Eu já tinha ouvido o meu pai a falar no Partido Republicano e ele dizia que era capaz de ser bom para o país porque promete mais justiça e melhoria das nossas condições de vida. Ele às vezes, quando se encontra com os outros homens da aldeia, discute estes assuntos e conta depois à minha mãe em casa. Hoje, perante esta notícia o meu pai coçou o bigode e disse muito solene: pode ser que agora isto melhore, a ver vamos, como diz o cego…

Entretanto, o Ti Manuel que mora junto à fonte mal soube da notícia correu a pôr colchas à janela e até deitou foguetes para o ar. Ficámos todos sem perceber o que se passava até que alguém explicou que ele era republicano e estava a manifestar a sua satisfação por finalmente ter sido implantada a República.

Casca do milho

Hoje à noite deitei-me tarde, fomos para a eira para a  casca do milho. Foi muito engraçado. Alguns rapazes cobriam-se com mantas (chamados mantoneiros) e percorreram o grupo dos cascadores distribuindo abraços e beijos.  Quando aparecia o milho-rei (espiga vermelha) distribuíram-se abraços pelos homens e beijos pelas raparigas. Não faltaram as adivinhas, até aprendi algumas novas, como por exemplo:

Quando a não tinha, dava-te. Agora que tenho não te posso dar. Pede a Deus que eu não tenha para te poder dar.

R:  A miséria.

Empresta-me o teu nica-a-nica para nicar o meu, depois do meu bem nicado para nicar o teu.

R: O fermento para fazer o pão.

Peludo por fora, peludo por dentro, alça-se a perna e mete-se-lhe dentro.

R: As calças.

Eu sou mãe de muitos filhos e comigo todos tenho, para os ter todos comigo dou uma volta vou e venho.

R: A nora

De hora em hora encontra o seu par, passa por cima dele sem lhe tocar.

R: Relógio

Altos palácios lindas janelas abrem e fecham e ninguém mora nela.

R: olhos

Minha dama fidalguinha de pau é o seu comer, mastigar e deitar fora que engolir não pode ser.

R: Mó do moinho

Tenho uma roupa de ferrum fum fum que se segura sem ponto nenhum.

R: Cebola

Capinha sobre capinha, capinha do mesmo pano, não és capaz de adivinhar nem que aí estejas um ano.

R: Cebola

Também se cantam canções

A Filha do Fidalgo

Venho aqui ó Reginaldo

Sou filha do rei mais querido

Venho aqui ó Reginaldo

P´ra noite ir dormir comigo.

Se eu não fosse seu criado

Você não mangaria comigo

É a sério ó Reginaldo

P´ra noite ir dormir comigo.

Está a falar a sério comigo

Diga-me a que horas hei-de ir

Venha das dez ara as onze

Quando pai está a dormir.

Onze horas eram dadas

Reginaldo a caminho

Com os sapatinhos na mão

P´ra não fazer rugidinho.

Quem é que me bate à porta

E me rebenta o postigo

É o menino Reginaldo

Que não faltou ao pedido.

Acorda Reginaldo acorda

Ai de nós estamos perdidos

A espada do meu pai

Entre nós os dois metida.

Toma lá esta cartinha

Escrita p´ro minha mão

Vai levá-la ao meu paizinho

Que de nós tenha paixão.

Donde vens tu Reginaldo

Que vens tão esmorecido

Fui dar de beber aos cavalos

Que ainda não tinham bebido.

Cala-te aí Reginaldo

Que tu nunca me mentiste

Foste caçar uma rola

E tu com ela dormiste.

A rola que tu caçaste

Foi criada com o meu trigo

Trata-a bem como esposa

Ela a ti como marido.

As festas populares

Gosto dos dias de festa. Há sempre rancho melhorado, a minha mãe até faz uns doces para depois da refeição. Vestimos a roupa que está em melhor estado e guardada na arca a preceito para a missa de festa e para a romaria. É tudo alegria e nesse dia ninguém pensa nos trabalhos. É claro que antes de tudo temos que acomodar toda a criação porque por ser festa o gado também tem de comer mas para o campo ninguém vai.

A minha mãe, como sabem é a rainha dos provérbios e também os tem para estas ocasiões como põe exemplo:

Ande o inverno por onde andar, no Natal cá vem parar.

Dos Santos ao Natal é inverno natural.

Santo Amaro, Santo Amarinho, se não chove neva, se não neva faz friinho.

Pelo Santiago pinta o bago.

Pelo São Martinho vai à adega e prova o teu vinho.

Quem quiser um bom alhal, plante-o pelo Natal.

Quem quiser alhos cabeçudos plante-os pelo Entrudo.

Pelo São João e São Judas, já colhidas são as uvas.

Pelo São Lourenço vai à vinha e enche o lenço.

No dia de Santa Luzia minga a noite e cresce o dia. (Santa Luzia comemora-se no dia 13 de Dezembro em Sivã de Baixo)

Águas verdadeiras, pelo S. Mateus primeiras.

Pelo S. Tiago cada pinga vale um cruzado.

Mas hoje à noite a festa é outra, fomos ao rosmaninho e vamos pinchar as fogueiras. Isso sim é divertido…Vou saltar até fartar pela noite dentro. A nossa fogueira há-de ser a mais alta das redondezas isso vos garanto eu. Sim, porque eu e a minha rapaziada não brincamos em serviço!

A ceifa do centeio

Hoje é dia da ceifa do centeio.  No terreno a ceifar, juntam-se muitas pessoas, umas rogadas pelo Ti António  outras não. Veio o Manel da Ti Ana, o João do cimo da vila, o Mário da rua da Igreja, que não sendo para aqui  chamados, apareceram  porque a fome é muita e  no mínimo ganham as refeições gratuitas. No dia da ceifa é que é encher a barriga…

Logo de manhã é o mata-bicho, figos e aguardente para dar força para começar o trabalho.   A comida é farta e à sobremesa nem vos digo, nem vos conto… Mas o que eu gosto mais é das papas de ralão doces. A minha mãe já me explicou como se fazem: o ralão (milho moído grosseiramente), é lavado em várias águas para tirar a casca exterior dos grãos de milho. Põe-se uma panela com água ao lume, quando ferver junta-se o ralão e quando cozido adiciona-se  mel em quantidade suficiente para adoçar as papas. São de comer e chorar por mais.

Também não faltam as canções como esta:

Boa tarde amor João

Boa tarde amor João

Venho-o desenganar

Vá governar sua vida

Já meu pai me quer casar.

Já teu pai te quer casar

Não lhe faltes à atenção

Casarás, viuvarás

Virás ter à minha mão.

Quando chegaram à igreja

Já os sinos a tocar

Já lá estava amor João

Debruçado a chorar.

Quando voltaram p´ra casa

Mesas postas p´ra jantar

Tudo estava tão alegre

Dona Arminda só chorava.

Que tens tu ó Dona Arminda

Tão triste e apaixonada

Se te lembra a mocidade

A tens tão bem empregada.

Não é essa a maior pena

Que levo no coração

É dizer adeus à terra

E deixar amor João.

Foram com ela ao doutor

Para ver o que ela tinha

Tinha o coração virado

De debaixo para cima.

Tinha duas letras de ouro

Gravadas no coração

Uma que dizia adeus

Outra adeus amor João.

O linho do mês de Maio

Ontem fui com meu pai para os lados da freguesia de romãs e ele aproveitou para me explicar como se trabalhava o linho já que passámos por alguns campos semeados. Quando estiver criado o linho é arrancado e leva-se para uma laje e aí bate-se bem batido para cair a semente. Depois fazem molhos que levam para os ribeiros para curtir. Põem-lhe pedras por cima para a água não o levar e passado algum tempo tiram-no, estendem-no no lameiro para enxugar. Depois, o meu pai contou-me que esse linho é “maçado”, ou seja, batido com um maço e a seguir é “sedado”(tiram-lhe as cascas das fibras do linho). Depois de sacudido, fazem as maçarocas e separam as trigas do linho da estopa. Mais tarde é fiado e sarilhado num sarilho. O meu pai acrescentou que depois são cozidas numas panelas de ferro para se porem a corar e ficarem bem branquinhas. E, por fim, depois de bem coradas, vão para a dobadoira para fazer os novelos e o linho está finalmente pronto. Eu achei este processo muito trabalhoso e complicado, mas gosto da toalha da mesa que a minha mãe anda a bordar feita de linho, lá isso gosto.

Armadilha para percevejo

Hoje à noite quando me deitei a minha mãe colocou à volta da cama várias armadilhas para percevejos. A minha mãe é limpa e asseada mas não há nada que acabe com a praga desses bichos horríveis porque eles durante o dia não se vêem, escondem-se nas frinchas da madeira da cama ou na palha do colchão. Por mais que se procurem nunca ninguém os pilha. De noite, às escuras lá vêm eles morder-nos quando estamos muito bem a dormir e regalam-se a chupar-nos o sangue a mim e aos meus irmãos. Pois não estavam à espera que eu dormisse sozinho, dormimos os três mais novos, dois para a cabeceira e um para os pés. Mas voltando às armadilhas, já cresceram os feijoeiros e as folhas na parte de baixo têm uma espécie de cola que até faz com que às vezes fiquem coladas à nossa roupa. Então, a minha mãe coloca essas folhas com a parte que cola virada para cima à volta da cama e se algum percevejo lá passar, zás fica logo agarrado e de manhã é só acabar com ele. Não acaba com a praga mas sempre ficamos mais aliviados.

A ida à feira

Amanhã a minha mãe vai sair cedo com as minhas irmãs mais velhas. Vão à feira de Barrelas(Vila Nova de Paiva) tentar vender alguns dos mimos que cultivámos: figos gordinhos de pingo de mel, abrunhos da Rainha Cláudia que são docinhos, bolo de azeite acabadinho de fazer, umas couves verdinhas e muitas outras coisas. Vão sair cedo, ainda muito de noite, e por serras e montes, por atalhos que elas bem conhecem elas equilibram os canastros na cabeça e lá vão.  Se demorarem a voltar, no regresso talvez parem um pouco nalguma casa conhecida ou numa loja de animais para dormir um bocadinho antes de retomar o caminho. É muito cansativo mas com isto arranja-se algum dinheirito para comprar algumas coisas que não produzimos.

O Regicídio

O irmão da minha mãe foi já há uns tempos trabalhar para Lisboa. Aqui há poucos trabalhos e ele resolveu tentar a sorte dele e partiu para a grande cidade. Às vezes dá-nos notícias e manda-nos um postal. Não que ele saiba ler ou escrever porque nunca foi à escola mas vai ter com alguém que saiba e paga para mandar escrever algumas palavras para a família ficar mais sossegada. Esta semana mandou mais um bilhete postal e ficámos a saber que tinha havido um atentado ao rei D. Carlos e mataram-no a ele e ao filho, o príncipe Luís Filipe. Os meus pais ficaram um bocado escandalizados, porque não se deve atentar contra a vida das pessoas e muito menos do rei. Eles fartaram-se de falar do assunto e eles acham que se as pessoas estão revoltadas deviam resolver de outra maneira. A minha mãe até chorou ao imaginar a tristeza da rainha ao perder logo duma só vez o marido e o filho. O meu pai abana a cabeça e diz que esperemos que tudo fique bem.

O galo e a raposa

Gosto de histórias e ontem, na hora da sesta,  quando estávamos a descansar debaixo da figueira o João contou a do galo e da raposa. A raposa arma-se em esperta, mas nem sempre leva a melhor…

O galo estava empoleirado em cima de um árvore. Aproximou-se uma raposa e com a sua voz matreira disse-lhe:

- Ó  compadre sabe que foi assinada uma lei entre todos os animais e doravante nenhum animal pode fazer mal ao outro. Desça compadre para nos abraçarmos.

O galo percebeu o que ela queria e, fingindo olhar ao longe respondeu-lhe:

- Vejo vir alem dois grandes cães de guarda, esperemos que eles cheguem para nos abraçarmos todos.

A raposa assim que ouviu falar em cães, ó pernas para que te quero

O galo todo contente cantava:

- Mostra-lhe a lei, mostra-lhe a lei.

Na fuga, a raposa passou por um tremoçal e com o calor as vagens estalavam.

- Que rica festa, dizia a raposa, logo hoje que vou com tanta pressa.

À noite em casa

Depois da ceia, nem sempre o trabalho acaba. Poucas são as vezes em que os meus pais não nos arranjam a todos que fazer. Às vezes rezamos o terço e depois uns vão para o tear, outros enchem as canelas, outros costuram, outros fiam, os mais pequenos tocam o pífaro e cantam para espalhar o sono e o cansaço do dia.

É nesta altura que se cantam histórias daquelas que eu gosto.

Hoje foi a vez de cantar a da canção “Vem comigo Maria Rosa”. Isto é que é drama  dos verdadeiros que até mete guarda e tudo.

Vem comigo Maria Rosa


Vem comigo ao passeio

Tu hás-de entrar comigo

Na sala do meu recreio.

A tua casa não vou

Nem lá tenho que fazer

Q´está lá tua mulher

Nem a sombra me quer ver.

Minha mulher não está

Há três dias que não vem

Foi fazer uma visita

A seu pai e sua mãe.

Come, come Maria Rosa

Não te faças amarela

A carne que estás comendo

É do peito da vitela.

Ela vitela não é

Nem disso tem o sabor

Mataste a tua mulher

O teu mais fiel amor.

Cala-te Maria Rosa

Entre nós é um segredo

Toma lá o anel de ouro

Que ela trazia no dedo.

Eu o anel não o quero

Nem disso quero saber

Já vou dar parte à polícia

Para te virem prender.

Já lá em baixo vem a guarda

Com as chavinhas na mão

Foi a sua própria amada

Que o foi dar à prisão.

A Família

Somos muitos cá em casa. Então, a minha mãe mandou as minhas irmãs mais velhas trabalhar na “casa grande” (solar). Vão ficar lá a viver. Uma delas vai trabalhar nos campos do dono da casa e a outra vai ajudar a cuidar das crianças dessa casa. A minha mãe ficou triste por as ver ir, ainda têm pouca idade mas já têm bom corpo como ela diz. Lá dão-lhes comida, dormida e uns troquitos que elas entregarão à minha mãe. Segundo ela, são menos duas bocas a alimentar e sempre entra mais um pouco. E, acrescenta mais um dos seus ditados do costume: trabalho de menino é pouco, mas quem o perde é louco.

Mas a propósito há outros provérbios que ela vai dizendo a propósito de tudo e mais alguma coisa. Quase diria que a minha mãe tem sempre uma frase pronta para qualquer ocasião, como os que vou agora dizer e que estão relacionados com os costumes/preocupações do dia a dia:

Guarda que comer não guardes que fazer.

Não comas a semente, inda que roas o dente.

Quem porcos busca, a todas as portas lhe roncam.

À tua mesa ou à alheia não te sentes de barriga cheia.

Quem faz um cesto faz um cento, se lhe derem vergas e tempo.

Pai impertinente faz o filho desobediente.

Vinho e amigo, o mais antigo.

Antes pobre mas honrado, do que rico mas ladrão.

Antes a pobreza honrada do que a riqueza roubada.

De lautas ceias estão as sepulturas cheias.

O vinho e o linho é só frio um poucochinho.

Depois de cear, mil passos dar.

Quem o alheio veste, na praça o despe.

Onde há galos não cantam galinhas.

Ninguém diga o que não sabe nem afirme o que não viu.

Burro velho não tem mandadura, se alguma toma pouco lhe dura.

Filhos ao pé da porta como as lagartas na horta.

As brincadeiras

Quando ando pelos montes com os meus irmãos é divertido. Arranjamos sempre uma brincadeira para passar o tempo. Ora toco no pífaro que trago no bolso e eles dançam, ou corremos e saltamos e jogamos ao “rou-rou” (às escondidas).

O nosso jogo preferido é o das pedrinhas e é preciso muita prática porque tem muitas etapas e vai aumentando a dificuldade. Vou explicar como se joga:

Uma- deita-se uma pequena pedra ao ar e enquanto isso tenta-se apanhar uma outra que está no chão;

Duas – faz-se a mesma coisa mas em vez de apanhar uma pedra tem que se apanhar duas;

Três – repete-se tudo e tenta apanhar-se três pedras;

Casinha –abrem-se bem os dedos de uma mão e a outra deita uma pedra ao ar, enquanto isso, tenta-se colocar as quatro pedras no meio dos dedos já abertos;

Duas no ar – é igual ao “uma”, “duas” ou “três”, mas em vez de se mandar uma ao ar, mandam-se duas;

Sarilho – é quase como fazer um malabarismo. Mandam-se as cinco pedras ao ar e tenta-se apanhá-las de novo, repetindo sem parar, nem deixar nenhuma cair ao chão.

Ainda temos outras brincadeiras e arranjamos sempre um tempinho para elas: o jogo das prendas, passar o anel, o do botão, o fito, a malha, descobrir os reis ou o jogo da partela. Este  é de mandar a telha com o pé-cochinho para o quadrado da frente que se desenha no chão de terra. Às vezes esquecemo-nos das horas nas brincadeiras e quando chegamos a casa a nossa mãe puxa-nos as orelhas ou danos com o rabeiro.

A Escola

Hoje vou à escola. O tempo está mau, minha mãe vendeu algumas das ovelhas e no campo há pouco que fazer. Assim, ela decidiu que eu iria à escola nos dias em que eu estiver livre. Segundo ela, assim sabe onde eu estou e não tem de andar à minha procura. Eu gosto da escola e de aprender. Na minha terra não há professor mas eu levanto-me cedo e vou com outros rapazes e raparigas, a pé, com o farnel no saco, a casa da professora que vive na aldeia a seguir. De manhã fazemos as contas na ardósia e o ditado. Se não fazemos bem ou damos erros levamos com a “menina dos cinco olhos” (régua de madeira). O António, coitado às vezes leva tantas que fica com as mãos inchadas. Se estamos distraídos cai-nos a cana em cima das orelhas. Ao almoço, sentamo-nos nas escadas da casa da professora e vamos ao farnel: uma côdea de broa, uma sardinha frita e, às vezes, um bocadito de chouriça porque a mãe matou o porco há pouco tempo. Não enche barriga mas dá para aguentar. Durante toda a aula ouve-se cá fora uma espécie de coro porque a professora dá a lição e nós repetimos em coro o que ela diz. Temos de ficar a saber tudo o que ela diz se queremos aprender. É uma espécie de cantoria mas eu gosto pois memorizo melhor. Também gosto de olhar para o livro da professora, com tantas letras e chama-se A Cartilha Maternal.

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